Aracaju, 01 de Março de 2021

Ansiedade: transtorno tem sido determinante na evolução do tratamento da Covid-19

22/02/2021 13h:45 - Por Deise Dias Foto: Pexels

 

Nunca o mundo esteve tão ansioso. O Brasil, que desde 2017 lidera  o ranking de transtorno de ansiedade no mundo, com a pandemia da Covid-19 atingiu taxas preocupantes, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). O grau de ansiedade tem sido determinante na evolução do tratamento de pacientes com Covid-19, afirmam os especialistas.

 

A jornalista Susana Guimarães foi infectada pela Covid-19 recentemente. Ela sentiu na própria pele como a ansiedade atrapalhou sua recuperação.

 

 “É uma doença solitária. Você tem que enfrentar ela só. Quem tem ansiedade pensa sempre no que vai acontecer e, normalmente, não é coisa boa. A gente pensa que vai acontecer algo ruim com a gente. Ela vai te fazendo se sentir pior do que está. É meio que desesperador. Se você tá com falta de ar, você não sabe se é porque você tá ansiosa ou porque você tá doente. Além de você ter que enfrentar a doença, você tem que enfrentar o seu pior inimigo, que é você mesma. É muito difícil”, relata.

 

O psicólogo e psicanalista Anderson Xavier diz ouvir relatos de pacientes em tratamento de Covid-19, assim como de profissionais de saúde em que se enfatiza exatamente isso: a ansiedade é um fator muito mais grave no tratamento do que a doença em si.

 

                                                                 Foto: Arquivo pessoal

                 

                         Xavier: “Não estamos preparados para lidar com o sofrimento”.

 

 

“A perspectiva de morte, de aniquilamento que qualquer doença, principalmente nessa que está em voga, mexe com todas as nossas fantasias, que estão ali, guardadinhas. Então isso vem à tona nesses momentos. Nós temos uma cultura, principalmente hoje em dia, que valoriza muito a vida e esses momentos mostram como estamos apegados a ela e como estamos despreparados para lidar com o sofrimento”, analisa o especialista.

 

 

Mulheres sofrem mais

 

 

O psicólogo Anderson Xavier disse que, apesar de não ter dados oficiais, percebeu um aumento significativo na procura por atendimento por causa dos transtornos de ansiedade. As mulheres são mais atingidas pelo problema.

 

“A mulher tem estado numa condição mais vulnerável, porque ela é exposta a condições muito mais sacrificantes do que o homem: A jornada dupla, às vezes, tripla; Ela é responsável tanto pela manutenção financeira da família quanto pela manutenção  afetiva. Então a pressão sobre a mulher é muito maior”, explica.

 

Segundo o psicólogo, o prolongamento da pandemia vem aumentando a sensação de desamparo das pessoas.

 

“Freud identificou, na época dele, como 'desamparo', o que um teórico mais atual, o Joel Birman, está chamando de 'desolação'. É como se a nossa sociedade, hoje, está com esse sentimento de desesperança, de falta de perspectiva, de falta de sentido. A crise econômica, associada ao acirramento das disputas políticas ideologicamente muito polarizadas, a cultura de ódio, de violência e de exclusão, tudo isso, vem  produzindo ao longo do tempo esta sensação de ansiedade, de angústia, de desesperança. A pandemia acabou incrementando esses sentimentos”, explica.

 

O especialista disse também que a pandemia traz um grau de indeterminação, que tanto pode ser encarado como um desafio – e ser revertido em algo transformador, produtivo para algumas pessoas –, quanto causar um maior descontrole, desencadeando a depressão e o transtorno de ansiedade.

 

 

Como lidar?

 

 

“Não existe uma forma universal para tratar a ansiedade”, disse o psicólogo Anderson Xavier. O especialista propõe para as pessoas que estabeleçam novas rotinas, que façam sentido para cada um.

 

Uma forma legítima de lidar com essa situação, segundo o especialista, é o escapismo. Por exemplo: estudar, ligar e conversar com as pessoas, cuidar da casa, repensar sua vida, fazer projetos novos, tentar estreitar os laços com a família, já que estão todos mais em casa, ouvir música ou ver filmes. “Não é negação, mas sim uma tentativa de tomar uma distancia disso tudo, de dar um tempo pra si mesmo”, esclarece. 

 

Outro ponto importante para lidar com a ansiedade, de acordo com o psicólogo, “é poder falar com as pessoas, falar da angústia, falar do medo com um amigo, com o marido, com o pai, com a mãe, com quem for possível. A fala dilui o problema”, explica.  

Por outro lado, quem pretende ajudar um paciente com Covid-19, durante uma crise de ansiedade, precisa escutá-lo sem dizer que o que ele está sentindo é “besteira”, mas trazer acolhimento, ouvindo realmente o que ele quer falar.

 

“Acho importante falar sobre isso. Eu não sei se foi mais sofrido por causa da Covid ou se foi tão sofrido por causa da ansiedade”, desabafa a jornalista Susana Guimarães sobre seu período de quarentena.

 

Ela disse que o acolhimento de amigos e familiares foi fundamental durante o processo de quarentena. Além disso, Susana contou com os seus dois bichinhos de estimação, os gatos Simbá e Nala (que não largavam do pé da dona nem na hora de dormir), para se distrair nos momentos em que a ansiedade ameaçava vir à tona.

 

                                                                                  Foto: Arquivo pessoal

                         

                                               Susana e um dos seus bichinhos de estimação

 

* Alterado em 23/02/ às 09:08

 

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