Aracaju, 06 de Dezembro de 2021

Recon: conscientemente unidas, contadoras negras fazem a diferença

Rede surgiu em 2019 e já conta com 60 mulheres
24/11/2021 11h:04 - Por Ascom - Foto: Divulgação

Elas se encontraram pela primeira vez em uma convenção de Contabilidade e perceberam que havia poucas delas. Desde lá, se uniram e estão cada vez mais presentes em todos os espaços contábeis. Foi assim que a Rede de Contadoras Negras (Recon) surgiu, em 2019, a partir da iniciativa de quatro profissionais do Rio Grande do Sul (RS). Atualmente, o grupo já conta com 60 mulheres, inclusive de outros estados.  No Dia da Consciência Negra, comemorado neste sábado (20), o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) destaca a caminhada dessas profissionais que juntas se fazem cada vez mais representativas no meio contábil.    

 

“A Recon é sobre ser e pertencer”, explica a contadora e mestre em Economia, Fabiana dos Santos, uma das embaixadoras do grupo. O lema exalta a identificação que elas encontram em questões da vida, do âmbito pessoal ao profissional. Por meio dessa empatia e sororidade, a rede apoia e incentiva estudantes, técnicas e empresárias, negras, ligadas à Contabilidade, a fim de que ascendam em todos os seus aspectos. 

 

“Nós costumamos dizer que a Recon é um espaço seguro. Lá eu posso falar das minhas fragilidades sem ser criticada. Eu sei que ali, vou ser envolvida e acolhida, e as minhas questões não vão ser bobagem. Isso é algo que tem acontecido com frequência e nós vemos as respostas de forma orgânica. Acabamos tendo essa irmandade, mesmo a maioria não se conhecendo [pessoalmente]. Entramos no grupo dispostas a trabalhar umas pelas outras por inteiro”, destaca Fabiana.

 

O papel da Recon se espelha, especialmente, em duas palavras, união e fortalecimento, que vai do individual ao coletivo. Conscientemente, no Brasil, sabemos que a população negra enfrenta diversos obstáculos provocados pela desigualdade social. Embora represente 54% de todos os brasileiros — segundo dados do Instituto Brasileiros de Geografia e Estatística (IBGE), do ano 2000 —, são os negros que sempre apresentam os piores índices em questões relacionadas a renda, trabalho, saúde, educação e entre outras. O racismo [re]velado também dificulta a inclusão deles em espaços que podem transformar esse cenário. Essa discussão também é presente na Recon.

 

A presidente do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul (CRCRS), Ana Tércia Rodrigues, que também é embaixadora do grupo, reflete que o papel da Recon é justamente unir. Ela conta que todas as integrantes já experimentaram o sentimento de estar em lugares onde não se reconhecem ou não se sentem à vontade, por não existirem outras referências femininas ou negras. Esse pensamento serve, hoje, de gatilho para mudar esse caminho e mostrar a todos uma nova visão.

 

“É uma união para sermos vistas. Ganharmos visibilidade e mostrarmos à sociedade que nós temos as nossas competências. Temos a mesma condição que qualquer outro profissional da contabilidade para estarmos em uma empresa de auditoria, liderarmos entidades da nossa classe, estarmos na sala de aula como docentes, sermos empresárias ou peritas contábeis. Podemos exercer qualquer função. Mas precisamos estar unidas, para nos fortalecermos mutuamente”, ressalta Ana Tércia. 

 

Um dos aspectos trabalhados dentro da rede são as crenças impostas pelo racismo estrutural a essas mulheres. Se configuram em temas que vão desde a imposição social do alisamento do cabelo ao machismo e à percepção da sociedade sobre a capacidade da pessoa negra suportar situações ruins ou desagradáveis. Essa última característica se faz presente em diversos momentos, influenciando no tratamento recebido, como, por exemplo, na hora do parto. O artigo A cor da dor: iniquidades raciais na atenção revela que a chance de uma mulher negra não receber anestesia, nesse momento, é 50% maior do que comparado às mulheres brancas. 

 

“Fomos criadas como se isso fosse uma fortaleza, mas, na verdade, isso é uma fonte de esgotamento, pois acham que podemos e temos que aguentar tudo. Aguentar calada, trabalhar e estudar mais que os outros. Diria que esse pensamento é um passo para a Síndrome de Burnout, mas é algo muito incutido na nossa crença cultural. Na Recon, nós também nos desconstruímos. Temos várias cargas desnecessárias, que nos ajudaram a chegar aonde estamos, só que à medida que desenvolvemos o nosso autoconhecimento, uma amplitude maior sobre a visão de mundo, percebemos que não precisamos ter cargas muito maiores que os outros e que podemos ter sonhos tão grandes quanto”, afirma Fabiana. 

 

 

Mudando histórias

 

É pelas redes sociais que a Recon acontece. Com perfis no Instagram, WhatsApp e no Facebook, elas vêm alcançando novos espaços e novas integrantes. Passaram de quatro para 60 mulheres e, geograficamente, cresceram do Rio Grande do Sul [onde o grupo surgiu] para outros estados, como Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Amazonas. Qualquer mulher negra da área contábil, que se reconheça, é bem-vinda para fazer parte, como foi o caso da contadora carioca Terezinha Silva dos Santos. 

 

Em 2020, enquanto passava tempo na internet, uma foto de mulheres negras comemorando o ano novo a chamou a sua atenção. “Eu pensei: ‘Nossa, que bonitas e empoderadas! Mas o que é isso?’ [risos]. Quando soube que o era, eu quis logo participar. Eu penso que a classe contábil é muito solitária. É difícil crescer sozinho na profissão, mas é um fato também. Busquei sempre manter colegas que estudaram comigo perto, mas todos se foram. Então, tê-las como referências é muito bom. Para nós, que somos negras, vemos a questão da representatividade. Vemos que podemos chegar lá”, conta Terezinha. 

 

A participação no grupo já trouxe mudança significativas na vida da contadora. Aos 56 anos, com boa parte da vida dedicada à perícia e à contabilidade tributária em tribunais, ela deixou a área para atuar como servidora pública na procuradoria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Encontrava-se desanimada na profissão, até que um dia uma ação da Recon mudou tudo. Um vídeo feito pela Rede, com as especialidades das participantes, foi divulgado no Instagram @oficial.recon, e ela compartilhou no WhatsApp com outros colegas de profissão. A iniciativa rendeu à Teresinha a proposta de entrar em um projeto grande ligado à Contabilidade na própria universidade. “Muitos não sabiam que eu era contadora, especialmente dessa área tributária, mas, por conta desse vídeo, eu cresci profissionalmente e economicamente. Eu agradeci a todas e elas se alegraram comigo. A Recon nos proporciona realmente uma troca maravilhosa todos os dias e nos impulsiona na profissão”, relata Terezinha. 

 

 

Inspiração

 

Para a contadora recém-formada, Jailsa Soares Gonzaga, 22 anos, de São Paulo, a Recon trouxe uma contribuição profunda em seu processo pertencimento e aceitação. Ela conheceu o grupo por meio da história da contadora Eliane Soares, na campanha do CFC do Dia do Profissional da Contabilidade, no ano passado (leia aqui). Desde então, faz parte e hoje nos traz um relato emocionante de como a Rede tem sido um alicerce na sua caminhada e construção profissional. 

 

“A mudança que a Recon fez na minha vida pode ser resumida em uma palavra: ACEITAÇÃO. Eu entrei como bolsista na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), uma das universidades mais renomadas aqui de São Paulo. É um espaço muito elitizado e dava para contar nos dedos a quantidade de negros que havia na sala de aula. Diversas vezes, eu entrava na universidade e pensava se estava no lugar certo, se deveria ter aceitado realmente aquele desafio. Eu nunca passei por nenhuma situação direta de racismo, mas quem é negro sabe da estranheza dos olhares que batem. Eu moro no extremo leste de São Paulo, então já era difícil o trajeto para chegar à faculdade. Enquanto eu saía de casa de madrugada para trabalhar e voltava tarde depois por estudar, ouvia dos meus colegas de turma que o motorista ia buscá-los e eles estavam cansados de gastar com restaurante e Uber. E eu tomando chuva e pegando metrô. Realmente, pensei diversas vezes se meu lugar era ali, se eu não tinha ousado demais. A partir do momento que eu entrei na Recon e me deparei com mulheres incríveis, uma delas, por exemplo, que trabalha em uma grande marca como executiva, isso foi um choque para mim. Um choque positivo de poder dizer: ‘eu tenho espaço também. Eu posso estar aqui também. Eu posso estar onde eu quiser’. E o fato de ser negra me dá a certeza que as dificuldades só vão fazer com que eu prospere mais ainda. Então, eu senti uma autoconfiança muito maior. Um desejo de estudar muito maior depois que eu conheci as meninas da Recon. Chamo essas mulheres assim, carinhosamente, porque são mulheres incríveis que me inspiram muito. É interessante porque acho que isso está ligado ao conceito de afrofuturismo. Quando você vê essas mulheres em cargos de liderança, transpirando motivação e autoconfiança, você consegue se enxergar nesses lugares também. Diante da população negra, que tem uma taxa de mortalidade muito alta, eu consigo visualizar uma vida próspera para mim também a partir do exemplo de outras mulheres. E isso não tem preço.” 

 

 

Sustentabilidade

 

O Dia da Consciência Negra é comemorado no dia 20 de novembro em homenagem à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. O legado desse líder pela libertação do povo negro do sistema escravagista se faz presente, em outras lutas, até os dias de hoje. 

 

Para a presidente do CRCRS, Ana Tércia, as discussões atuais sobre a ESG — “Environmental, Social and Governance”, que significa “Ambiental, Social e Governança” — contribuem para ampliar a discussão. As conquistas foram muitas, mas ainda pequenas frente a tudo que se deseja alcançar. “Chegamos com vontade de recuperar muitas coisas que perdemos ao longo do tempo. Estamos em um momento de aprendizado, uns com os outros”, reflete.

 

Ela destaca que o CRCRS e o Conselho Regional de Contabilidade de São Paulo (CRCSP) possuem grupos que trabalham a diversidade para tornar mais plural e inclusivo o meio contábil. “Estamos em um momento em que nós criamos condição para a autoestima se fortalecer, movimentos econômicos e profissionais. Além disso, por conveniência e oportunidade, as empresas estão discutindo a sustentabilidade, a inclusão, a diversidade e a pluralidade. Podemos sempre pensar em como incluir as pessoas negras. Quando as pessoas fizerem um grupo de palestrantes, uma comissão, pensem em qual pessoa negra convidar e inserir. Os profissionais negros estão buscando esse espaço. O meu desejo é que toda a contabilidade abrace essa causa para que ela se torne mais forte”, finaliza a presidente. 

 

 

 

 

 

Como participar?

 

Para participar, basta enviar uma mensagem pelas redes sociais à Recon.

 

Instagram: https://www.instagram.com/oficial.recon/ 

 

Facebook: https://www.facebook.com/oficial.recon 

 

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