Aracaju, 16 de Abril de 2021

O verbo ‘desistir’ não é conjugado por essas mulheres

Elas enfrentam o câncer dia após dia, mas trazem consigo uma força que o Conecte Mulher quis saber de onde vem.
02/03/2021 10h:28 - Por Deise Dias Foto: Arquivo Pessoal

Além do coronavírus, qual a doença mais temida pelos brasileiros? Se você respondeu o câncer, acertou. Já em 2015, um estudo do Datafolha apontava que 65% dos brasileiros temiam mais o câncer do que outras doenças.

 

Outra pesquisa, publicada na Revista Mineira de Enfermagem, mostra que, para a mulher, a suspeita de câncer é sempre conflituosa, seja por medo da mutilação ou pelo tabu de uma doença que julga sem cura. O diagnóstico positivo expõe toda a vulnerabilidade da mulher, que se alia a vários questionamentos sobre a vida e seu significado.

 

Em tempos tão difíceis, é natural que as pessoas fiquem fragilizadas, cansadas e, algumas vezes, pensem em desistir de tudo. Essas mulheres, entrevistadas pelo Conecte Mulher, mostram que o verbo “desistir” foi riscado dos seus vocabulários, e contam de onde vem a força para enfrentar os desafios que a vida lhes apresenta.

 

 

 

Delma Oliveira

 

 

 

                                                                                      Foto: Arquivo Pessoal               

 

 

Apesar de trabalhar no setor de farmácia, Delma Oliveira, de 48 anos, tinha 10 anos que não fazia uma mamografia. Em 2017, estava se sentindo cansada e bem estressada. Um dia, ela foi convidada a assistir uma palestra sobre câncer de mama e, entre outros assuntos, ensinaram como fazer o exame de toque.

 

“Uma semana depois da palestra, me toquei durante o banho e percebi algo acima da mama. Fiquei assustada, chorei. Meu marido ainda tentou me acalmar, dizendo que não era nada. Fui ao ginecologista, que me indicou um mastologista, fiz diversos exames, não dava nada. Lembro que a cada diagnóstico negativo minha família vibrava, mas eu sentia que tinha alguma coisa e continuei investigando. Foi quando fiz uma biópsia e o câncer estava lá. Eu só pensei: Senhor, me dê a chance de lutar e viver”, relata Delma.

 

 

A dificuldade de diagnóstico, fato que poderia ter sido evitado se ela tivesse acesso a exames mais complexos e precisos, que não existem no estado, causou complicações no tratamento. “O tratamento de câncer é muito caro e se você não consegue ter acesso no tempo certo, isso pode piorar sua condição”, critica.

 

Delma conta que o apoio da família, dos colegas de trabalho e das amigas do grupo Resiliência foi importante e lhe deu forças e condições para continuar o tratamento. “Passei seis meses sem receber salário, por causa do INSS. Meu marido é motoboy e, mesmo trabalhando duro, não conseguia dar conta. Meus colegas de trabalho me ajudaram muito nesse momento. [...] O grupo Resiliência me dá o apoio emocional, me ajuda saber o que fazer em determinados momentos, pois a experiência de cada uma vai mostrando os caminhos. A alegria do grupo contagia as pessoas”,  conta.

 

Com a queda de cabelos, quis usar peruca, mas mudou de ideia com o incentivo do marido. “Ele disse que adorava a minha carequinha e raspou a cabeça também”, sorri. 

 

 

 

Edilma dos Santos

 

 

 

                                                                                     Foto: Arquivo Pessoal                                 

 

 

Quando Edilma Maria dos Santos, de 50 anos, recebeu o seu primeiro diagnóstico de câncer, em 2017, disseram que ela tinha poucos meses de vida.

 

“Minha primeira reação, no mastologista, quando me falou que era câncer, eu disse, sem choro: Sim. Eu quero tirar os dois seios. Então, ele me perguntou: Você entendeu o que eu falei? Deu maligno. E eu disse: Sim, vamos lutar, porque só Deus tem o direito de me tirar daqui.”

 

A época, Edilma precisou de uma medicação, que não era fornecida pelo SUS, para ter uma sobrevida, segundo os médicos.

 

Foi assim que começou a batalha de Edilma. Ela entrou na justiça para conseguir o medicamento, ganhou a batalha, mas isso já tinha lhe encurtado seis preciosos meses.

 

Além do câncer de mama, Edilma foi diagnosticada, logo depois, com mais dois tipos de câncer.

 

Desde então, Edilma não para. Entre seções de quimioterapia, brigas na justiça com os governos para conseguir remédios para o tratamento de câncer, ela ainda acha tempo para cuidar de outras pessoas que, como ela, foram diagnosticadas com câncer. Tem sempre um sorriso no rosto e uma palavra de conforto ou de incentivo para quem a procura, seja no HUSE, durante o tratamento, ou por telefone, no grupo de apoio Resiliência Feminina.

 

Contrariando todas as previsões médicas, no último dia 13 de fevereiro, Edilma completou quatro anos do seu primeiro diagnóstico. “Para quem só tinha três meses de existência, estou no lucro”, brinca a guerreira.

 

De onde vem essa força? Ela responde: “Ter fé, não entrar em desespero e agir. Não espere por ninguém, corra atrás do seu tratamento. Eu vivo o hoje e acredito que só Deus pode determinar o tempo que a gente tem”, conclui.

 

 

 

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