Aracaju, 16 de Abril de 2021

O que leva pessoas, a essa altura da pandemia, não usar máscara?

17/03/2021 09h:45 - Por Deise Dias - Foto: Pexels

Um ano de pandemia, número de casos e de mortes cada vez maiores, hospitais lotados e as pessoas continuam não aderindo às medidas de contenção, como não aglomerar e usar máscaras. Mas o que leva um grupo de pessoas a não usar máscara, visto que campanhas e todo um contexto mundial adverte que é importante para salvar vidas?

 

No início do ano, em entrevista ao The New York Times, o psicólogo social Jonathan Haidt advertia que o cumprimento ou não das restrições para frear o contágio do coronavírus estava atualmente intimamente ligado ao partidarismo. Aqui, no Brasil, o fato do presidente, que lidera uma camada significa da sociedade, dizer que é contra as medidas de segurança, batendo de frente com as indicações da ciência, confunde a população e prejudica as ações de combate à expansão do coronavírus.

 

Outro fator que os especialistas observam é o relaxamento das normas de segurança, principalmente após a chegada da vacina.

 

“Muitas pessoas ficaram mais relaxadas em relação a esses cuidados, achando que, ao tomar a vacina, você não vai contrair a doença e não é isso. Por exemplo, eu tomei todas as vacinas indicadas, na minha infância, e eu tive catapora, sarampo , caxumba.. mas foram fracas. Então a vacina é isso aí: ao tomar não quer dizer que você não vai ter. Você pode ter, só que com sintomas menos graves”, explica a psicóloga Vanessa Ximenes.

 

O fato de algumas pessoas ficarem assintomáticas quando contraem a doença, passa a falsa impressão de que “não é tão grave assim”. Além disso, a falsa crença de que a pessoa cria anticorpos ao contrair a doença, também leva ao relaxamento das medidas de segurança. O que a prática mostra é justamente o contrário: o novo coronavírus não dá trégua e, em geral, a segunda vez é bem mais forte que a primeira e pode, inclusive, levar a complicações fatais.

 

 

Autocontrole x Medo

 

 

 

                                                                                                             Foto: Arquivo pessoal

                                                                                                                              Psicóloga Vanessa Ximenes

 

 

A psicóloga Vanessa Ximenes diz acreditar que o que leva uma pessoa a não aderir às medidas de segurança tem a ver com o autocontrole, o que está intimamente ligado ao autoconhecimento.

 

“Infelizmente, as pessoas, hoje, não conseguem gerenciar as suas emoções. Muitas vezes são imediatistas, não sabem falar não, até pelo medo de ouvir um não também. Diante de um convite de um grupo de amigos pra balada, pra festas e tal, não sabem dizer esse não porque acham que vão ser julgados, temem não serem bem aceitas, bem-quistas por todos”, explica a psicóloga.

 

O comportamento mais comum das pessoas que não aderem às medidas de segurança é a negação. “O indivíduo nega, reclama demais e não aceita a realidade. Ele tem uma baixa confiança, faz diversas fugas, porque ele está diante de um medo muito grande. É assim que reage ao medo. Lamenta-se demais, culpa o outro. Alguns, inclusive, ficam mais agressivos”, revela Vanessa Ximenes.

 

Freud já dizia que a negação é um dos mecanismos inconscientes de defesa da natureza humana.  Um recurso contra sofrimentos insuportáveis, como a morte de um ente querido, por exemplo. Em certa medida, a negação pode ajudar a suportar a dor num primeiro momento.

 

No entanto, há um tipo de negação mais preocupante, segundo os especialistas, que é ligada ao prazer. O indivíduo busca a satisfação imediata de seus desejos e ignora os riscos para obter seu objetivo. O medo, causado pela pandemia, leva alguns indivíduos a negarem a doença e, para isso, sentem a necessidade de correr riscos para provar que estão no controle, que a doença não os afeta. Por isso, expõem a si mesmos ou a outrem a riscos.

 

Para essas pessoas, a negação da pandemia é mais fácil do que a  responsabilidade  de enfrentar o problema,  por eles próprios e pela coletivamente.

 

 

Personalidade

 

Um estudo brasileiro realizado entre março e junho do ano passado, publicado pela revista Personality and Individual Differences,  mostra que pessoas relutantes em usar máscaras tinham não só níveis de empatia mais baixos, como também insensibilidade, tendência para o engano e autoengano e comportamentos de risco.

 

“Em resumo, as pessoas que relutam em usar máscaras e que desafiam as normas de prevenção teriam mais características associadas a transtornos de personalidade antissocial. E, ao não reagir aos sentimentos provocados por outras pessoas, estariam mostrando que não se importam muito com o bem comum”, conclui o estudo.

 

Comentários