Aracaju, 16 de Abril de 2021

Falta de discussão da violência obstétrica nas telenovelas contribui para naturalização da prática, indica estudo

Foram analisadas 60 cenas de partos de novelas da Rede Globo a partir dos anos 1980
20/03/2021 10h:03 - Por UFS - Foto: Pixabay

Em quase quatro décadas, a representação da violência obstétrica nas telenovelas brasileiras foi marcada pela ausência de problematização temática. A conclusão é de um estudo coordenado pela professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Renata Malta, e o mestre em Comunicação Social, Jônatas Santos.

 

O objetivo da pesquisa foi analisar cenas de parto de telenovelas exibidas pela Rede Globo, entre 1980 e 2017, para identificação das diversas representações da violência obstétrica (velada ou explícita). Para isso, foram utilizados dois métodos complementares: análise de conteúdo e análise de imagens em movimento. Depois disso, a violência midiatizada contra as parturientes foi classificada em três eixos: violência pela situação, violência pelo abandono e violência direta.

 

A pesquisa, publicada na Revista Eletrônica de Comunicação e Inovação da Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em dezembro do ano passado, mostra que das 60 cenas selecionadas, 77% representavam um tipo de violência obstétrica. A maioria (61%) era relacionada à violência direta, quando a violência, física ou psicológica partia de profissionais da saúde, parteiras ou aqueles que auxiliaram o parto de forma amadora. Em seguida, a violência por abandono - gestante desacompanhada de alguém com laço afetivo durante o parto - foi identificada em 45,70% dos episódios. Já a violência pela situação - quando o parto acontecia em lugar inadequado - foi observada em 39,10% do material estudado.

 

Em apenas 23% das cenas, não foram encontrados nenhum nível de violência obstétrica, com narrativa humanizada, acompanhamento dos pais dos bebês e trilha sonora que passa a sensação de tranquilidade. Um exemplo disso é a novela Amor à Vida (2013), quando a cesariana é justificada pela ausência de dilatação da personagem, e o desconforto dela com o procedimento cirúrgico é tratado com respeito, contribuindo para uma visão positiva do parto normal.

 

 

O que isto significa?

 

Professora do Departamento de Comunicação Social (DCOS) e coordenadora do estudo, Renata Malta afirma que os resultados mostram que a representação da violência obstétrica apareceu com frequência nas telenovelas, mas com a gravidade do assunto “silenciada e velada”. “Então, personagens que sofrem violência obstétrica nas telenovelas não questionam, não problematizam a violência sofrida. De fato, essa violência acaba sendo velada”, ressalta.

 

 

                                                                                                     Foto: Arquivo pessoal

                                                                                                            A professora Renata Malta, do DCOS, é a coordenadora do estudo.

 

 

Malta ainda pontua que é preocupante a naturalização do assunto nas representações do parto, que chega a muitas mulheres através do universo ficcional. “Então, essa representação tem um papel muito mais significativo para construção do imaginário coletivo sobre o parto, se a gente comparar com outros tipos de representação, os quais a gente tem acesso tanto na vida real como na ficção.”

 

Ao longo da pesquisa, a professora observou que as novelas foram responsáveis por agenciar diversos temas na sociedade, como clonagem e tráfico de mulheres. Ela destaca também que grande parte do que é discutido surge nas narrativas ficcionais. “Eu fico pensando que a falta de discussão do tema na sociedade, certamente, tem grande relação com a falta de problematização na novela. Se a novela tivesse pautado, a gente teria uma discussão mais relevante do tema na sociedade, como outros temas tiveram essa discussão, especialmente, em períodos anteriores em que a audiência era muito maior do que a gente tem hoje”, enfatiza.

 

O artigo é um dos pilares de um projeto de pesquisa que começou em 2017 com intuito de investigar a representação do parto nas telenovelas. Abordar como a violência obstétrica é retratada nas novelas traz um ineditismo para o estudo, conta a pesquisadora, uma vez que é “um tema pouco explorado, pouco estudado” e, quando analisado, volta-se para as representações da maternidade ou da violência contra a mulher.

 

Renata Malta vislumbra a realização de um novo estudo de recepção para entender como as mulheres e parturientes recebem os conteúdos em que os partos são representados. “Seria interessante como desdobramento entender a ponta, a recepção, como é que o público e, em específico, mulheres nessas condições recebem e interpretam esse conteúdo. É uma ideia que tenho mais adiante.

 

 

O que é a violência obstétrica?

 

Em entrevista a um blog especializado em saúde, a assessora técncia técnica da Saúde da Mulher, Ana Catarine Carneiro, disse que a “violência obstétrica é aquela que acontece no momento da gestação, parto, nascimento e/ou pós-parto, inclusive no atendimento ao abortamento”.  E completou: “Pode ser física, psicológica, verbal, simbólica e/ou sexual, além de negligência, discriminação e/ou condutas excessivas ou desnecessárias ou desaconselhadas, muitas vezes prejudiciais e sem embasamento em evidências científicas”.

 

Essas práticas submetem mulheres a normas e rotinas rígidas e muitas vezes desnecessárias, que não respeitam os seus corpos e os seus ritmos naturais e as impedem de exercer seu protagonismo.

 

Um estudo da Fundação Perseu Abramo, de 2010, revelou que uma a cada quatro mulheres sofreram violência obstétrica no país. As mais recorrentes foram: gritos, procedimentos dolorosos sem consentimento ou informação e falta de analgesia.

 

De acordo com a Artemis, uma organização não governamental, o termo é caracterizado “pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vidas das mulheres”.

 

Comentários