Aracaju, 16 de Abril de 2021

Nessa pandemia, como está o dia a dia de mulheres que migraram para outro país?

03/03/2021 09h:51 - Por Ascom- Foto: Reprodução Internet

Migrar de país está longe de ser uma tarefa fácil. Por mais que exista o encantamento e a expectativa de uma vida melhor, a verdade é que, para muitos, há um sentimento de ansiedade, que vem junto com o medo, estresse e tantos outros.

 

Mais cautelosas e atentas a detalhes, as mulheres geralmente participam da decisão desde o começo até a palavra final. No entanto, por mais planejamento que tenha feito, ninguém esperava pela pandemia, que se arrasta por mais de um ano. O cotidiano das brasileiras em outros países está ainda mais delicado do que os nativos, pois a insegurança financeira e a saudade da família crescem.

 

A jornalista Carolina Tavarez, de 34 anos, mudou-se com o marido, no final de 2018, para Barcelona. “Na época, como eu não podia trabalhar, continuei a fazer trabalhos freelancers para o Brasil. Moramos em várias casas, em quartinhos apertados. Certa vez, alugamos um que tinha um buraco no chão e a cama precisava ser sustentada em tábua de carne. São situações que passamos, ficaram para trás e conseguimos evoluir”, relata Carolina.

 

Para a jornalista, o maior desafio mesmo no seu tempo de imigrante foi alinhar o puerpério com a pandemia. “Foram 24 horas em trabalho de parto, sem fármacos, sem anestesia e pelo sistema público de saúde. Minha filha nasceu em pleno Carnaval, no dia 23 de fevereiro, e dias depois, foi declarado o lockdown na pandemia. Somente agora que conseguimos vaga na creche, porque os dois trabalham e ainda com bebe, estava uma loucura”, relata.

 

 

Desconforto

 

Em Portugal desde 2018, a influenciadora digital Cristina Maya ainda tem de lidar com os desconfortos de ser imigrante, com a saudade de viajar e tudo isso somado ao confinamento. “As medidas anteriormente adotadas foram renovadas no último dia 15 de fevereiro, como era de se esperar. Não houve alterações e por isso, o país segue com as fronteiras fechadas e nada mudou quanto ao rigor das regras do Estado de Emergência”, conta.

 

Cristina recorda que no primeiro fechamento geral, ela se arriscou a fazer compras de supermercado online, mas não é um hábito corriqueiro. “Tentei novamente comprar o que precisava dessa forma, afinal, esse tipo de estabelecimento fecha às 17h00 aos sábados e ficaria muito corrido. Outro ponto que me deixou chateada é que alguns itens selecionados não foram entregues, o que gera transtorno para quem está contando com certos ingredientes para um determinado preparo”, aponta.

 

Além de todos esses desafios, a youtuber tem que lidar com a questão emocional. Muitas pessoas que ela conhece decidiram voltar para o Brasil. Alguns ficaram apenas quatro meses, outros três anos, mas agora decidiram voltar para o país de origem. “E essas famílias muitas vezes são donas de animais de estimação, mas por conta da questão financeira, não conseguem levar o animal de volta e precisam doá-los, e isso me afeta profundamente”, afirma.

 

 

Isolamento

 

A relações públicas Tatiana Fanti, de 37 anos, teve uma mudança de vida dupla. “Não só saí do Brasil como enfrentei um ano atípico de pandemia e lockdown. A primeira grande lição que aprendi na Alemanha, onde moro, é que aqui as coisas funcionam. Quando se fala em isolamento, realmente ficamos isolados. Não era permitido fazer sequer pequenas reuniões e o convívio se restringiu aos que moravam comigo”, aponta.

 

Isso tornou os primeiros meses um grande desafio para ela, que se considera uma pessoa extremamente sociável e comunicativa e que recarrega suas energias estando ao lado de amigos. “Não tive isso aqui por quase um ano. Meu convívio social eram meus filhos (12 e 1 ano) e meu marido.  Claro que a saúde mental ficou abalada e por algumas vezes senti aquele começo de depressão, quando a gente não tem vontade de levantar da cama. O que sempre me moveu foi a vontade (e necessidade) de fazer minha filha se adaptar ao novo mundo. Por ela, principalmente, não me deixei abater. Ela precisava me ver forte para saber que estava e que ficaria tudo bem”, destaca.

 

Um ano e um mês depois, ela está mais adaptada à Alemanha e à pandemia. “Aprendemos a nos virar, embora eu ainda seja completamente iniciante no idioma, já estou desenvolvendo a minha rede de amigas, todas brasileiras e que, assim como eu, buscam pertencer de fato ao país”, finaliza.

 

 

Reiventando projetos

 

Morando fora desde 2012, a blogueira Suzana Lira também teve que lidar com diversos problemas durante a pandemia. Mas, ao invés de se lamentar ao ver o seu próprio negócio perder fôlego, iniciou um projeto para ajudar pequenos empreendedores chamado Influencers Helping. “Engajamos um grupo para fazer anúncios e publicações para ajudar essas pessoas. A ideia era causar um impacto na comunidade e, felizmente, conseguimos ajudar várias empresas”, comemora.

 

 

Como minimizar problemas?

 

 

 

                                                                                                                      Foto: Pixabay

                                   

 

 

As experiências relatadas por essas mulheres mostram a importância do planejamento no processo migratório. “Há inúmeras que largam tudo, em busca de um futuro melhor”, explica o advogado especialista em Direito Internacional, Daniel Toledo. O sócio fundador da Toledo e Advogados Associados destaca que boa parte da insegurança — que é bem presente em quem decide mudar de país — é resolvida com um bom planejamento, tanto estrutural quanto financeiro. “É uma preparação que deve ser feita com um ou até dois anos de antecedência e, em todas as situações, contar com um profissional especializado para auxiliar em todas as etapas do processo”, aponta.

 

De acordo com a mentora e especialista em transição de carreira, Marcella Brito, da Global Mentoring Group, a maior preocupação é sempre em aprender o idioma local e muitos acreditam que somente a fluência na língua será suficiente para estabelecer uma boa relação no novo país. “Cultura é convivência, partilha de alegrias e dores, compreensão de rituais e em tempos de pandemia, é preciso de uma dose extra de coragem, determinação e principalmente, paciência”, pondera.

 

 

Migração na pandemia

 

Para os que ficaram no Brasil e trabalham na regularização migratória daqueles que migraram para cá, diversas questões foram enfrentadas, “pois os serviços de atendimento na Polícia Federal e também na Justiça Federal foram inicialmente suspensos ou diminuíram consideravelmente em quantidade, sendo feito apenas por agendamento. E, no início da pandemia, estava bem complicado conseguir agendamento para os imigrantes que gostariam de alterar sua situação migratória, mudar o tipo de visto ou até pedir a renovação de algum documento”, explica a Dra. Paula Brasil, que é especialista em política migratória e atua em São Paulo.

 

“Além disso, diversos consulados e embaixadas também suspenderam a emissão de documentos e alguns serviços básicos, que antes eram comuns e não contavam com qualquer burocracia. Um exemplo foi o consulado dos Estados Unidos em São Paulo, que emitiu passaportes apenas em situações de urgência, desde abril até novembro”. Complementa a advogada.

 

Muitos países dilataram os prazos para os documentos das pessoas imigrantes, contudo é sempre uma situação que gera muita insegurança e há diversas informações desencontradas. Cada site do governo traz uma determinada notícia, entretanto a situação demorou um bom tempo para voltar à normalidade.

 

Outra grande preocupação é com as áreas de fronteira, com as migrantes grávidas e as crianças, pois chegar a um país com sua família e enfrentar o isolamento forçado, com as campanhas do “fique em casa”, não é nada fácil.

 

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