Aracaju, 10 de Dezembro de 2018

Redes sociais em tempos de cólera

20/03/2018 15h:34 - Por Tito Lívio de Santana
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O advento das redes sociais permitiu a interação e uma aproximação maior entre as pessoas.  Isso é fato. Mas também se tornou um campo minado,  em tempos tão sombrios como os atuais, contribuindo, inclusive,   para  envenenar ainda mais a sociedade brasileira com o discurso do ódio,  da intolerância e do preconceito.

 

Para esse aspecto,  há quatro.anos, em entrevista à Agência Brasil, a professora de Relações Internacionais da Unifesp,  Esther Solano,  já chamava a atenção sobre  os perigos que circundam as redes sociais,  com a simplificação do debate político nas redes, como resultado da polarização ideológica que se acentuou a partir de 2013, gerando um clima de animosidade entre a sociedade brasileira.

 

Segundo Esther Solano, se por um lado, as redes sociais são um fator de mobilização política enorme, por outro "têm um aspecto negativo que é justamente a simplificação do debate político. Há um compartilhamento de informações superficial e muito rápido: no Facebook, por exemplo, praticamente ninguêm lê com detalhes as matérias; todo mundo compartilha manchetes sem saber muito bem se é verídico ou se é boato. Você vai compartilhando tudo isso e não tem tempo para realmente refletir".

 

Ela explica que a informação política que deriva desse processo simplista  é muito precária. "E na rede social se tem um gueto ideológico, porque os seus amigos dali são os que geralmente pensam de forma parecida com você. Então, em vez de debater e trocar ideias, você acaba dentro das suas próprias ideias, indo na onda daqueles que pensam parecido, e o debate não se desenrola. E quando há debate, é muito raivoso. Infelizmente a rede social é uma plataforma política, mas ela tem essa característica. Empobrece o conteúdo do debate e faz com que seja bem polarizado".

 

E uma das ferramentas mais utilizadas nesse ambiente virtual para a disseminação desse tipo discurso são as chamadas fake news,  que se multiplicam, agora mais do que nunca,  para materializar e instrumentalizar esse ódio,  inclusive diante de episódios de barbárie,  como o caso do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Mariele Franco, do PSOL, e do motorista Anderson Gomes, ocorrido na quarta-feira passada.

 

Embrigada muitas vezes por.esse ódio,  ou em outros casos,  por puro maniqueismo político,  grande parte da sociedade acaba compartihhando essas falsas notícias,  de forma célere e sem ao menos uma checagem da veracidade ou não dos fatos, num processo robotizado que apenas retroalimenta esse discurso de ódio,  intolerância e preconceito.

 

Algumas dessas fake news não resistem, sequer, a uma rápida investigação on line para,  então,  se descobrir a origem e autoria dos comentários,  bem como o seu viés ideológico. 

 

Nesse campo minado, que é o espectro político-ideológico polarizado, à  margem da brutalidade que marcou os assassinatos, multiplicam-se sem piedade e desprovidos de um mínimo de razoabilidade,  informações e comentários que só aprofundam o pântano da desinformação e de aleivosias entre os usuários das redes virtuais.

 

E às  vezes beiram à irresponsabilidade, como no caso das declarações de uma desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que acusou a vereadora assassinada de "engajada com bandidos" e de ter sua campanha financiada pelo trafico que domina as favelas cariocas, sem ao menos apresentar provas que corroborassem com tal valor de juízo.

 

São muitos, portanto, os perigos que rondam as redes sociais, nesses tempos de cólera. 

 

 

*Tito Lívio de Santana é  jornalista

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