Aracaju, 24 de Setembro de 2018

Ser demitida foi a melhor coisa que aconteceu

13/08/2018 15h:00 - Por Por Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude
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Os últimos dias têm sido de bastante reflexão. Há três anos, no dia 4 de agosto de 2015, eu era demitida do meu último emprego. No sábado, acordei e decidi tomar café em uma padaria onde fiz os primeiros rabiscos da Vittude, startup da qual sou fundadora. Fiquei feliz de ver quantas coisas interessantes aconteceram nesse período.

 

Registrei aquele momento no Instagram e comecei a receber algumas mensagens super bacanas. Decidi então compartilhar a reflexão em um pequeno post no LinkedIn. Não podia imaginar o tamanho do engajamento que teria. Comecei a observar vários comentários, me senti acolhida e também compreendi que deveria contribuir e compartilhar mais.

 

Em 2015, fui demitida às vésperas do meu aniversário. Que bela surpresa, né?! Hoje percebo que foi realmente foi um grande presente e, aproveitando o período de celebrações, resolvi escrever porque ter sido demitida foi o melhor presente que ganhei.

 

Sei que nosso País ainda não conseguiu sair completamente da crise política e econômica. Vejo muitos colegas repensando a escolha profissional, decidindo trilhar carreira solo como consultor e indo fazer o que gostam de verdade. Quando a situação está preta, nem sempre conseguimos ver as oportunidades disfarçadas.

 

Sou engenheira civil de formação, sempre gostei muito de estudar, era muito dedicada aos estudos e uma das melhores aluna da sala. No ambiente de trabalho nunca foi diferente: desde o primeiro emprego era dedicada e determinada a atingir e superar metas. Comecei minha carreira como trainee do grupo Votorantim, no qual fiquei por quase 4 anos. Passei por outros 3 grupos multinacionais enormes. Fiz 3 MBAs e procurei ao longo da carreira manter uma postura profissional exemplar. Entretanto, mesmo estando qualificada, capacitada e trazendo resultados financeiros para as empresas que trabalhei, fui demitida 2 vezes. As duas em épocas de crise.

 

A primeira demissão

 

Na primeira vez, no final de 2008, fiz parte de uma reestruturação feita pela empresa na região nordeste, onde eu atuava. Tinha passado os últimos 3 ou 4 meses demitindo pessoas do meu time, adequando a empresa para um novo formato. Sabia que em breve chegaria a minha vez. Essa "leitura de cenário" foi fundamental para que eu me organizasse e pensasse no plano B. Fiz contatos, me conectei com gestores de outras empresas e, de certa forma, procurei "vender meu peixe".

 

Enfim chegou a minha vez de ser demitida! Apesar da tristeza, me despedi de todos com muito carinho e, na mesma tarde, já estava tomando café em outra empresa. Fui contratada pela concorrência, no mesmo mês, para ganhar cerca de 50% a mais do que ganhava antes. O autoconhecimento, a preparação para o momento que ia chegar e a confiança no meu potencial fizeram toda a diferença para que essa fosse uma história divertida de contar.

 

A segunda demissão

 

Na segunda vez, em agosto de 2015, foi um pouco diferente. Mais uma vez vivíamos um período de crise. Construção civil ia de mal a pior, com o avanço da operação Lava Jato. A empresa em que eu trabalhava tinha começado a fazer cortes e ajustes em fevereiro daquele ano. Todos os meses via colegas excepcionais sendo desligados. A forma com que a empresa fazia os desligamentos, porém, era bem diferente de todas que já havia trabalhado. Era fria, não parecia se importar com as pessoas que até meses atrás davam o sangue por aquela organização. Um colega meu chegou a desabafar certa vez dizendo que tinha se sentido quase "um bandido" tamanha falta de habilidade do gestor. O clima no ar era pesado. Uma mistura de ansiedade e medo do desemprego, piorado pela "rádio peão", que estava sempre especulando quem seriam os próximos.

 

A sensação de ser demitida é sempre ruim. Nós criamos vínculos, amizades e nos apegamos aos CNPJs. Literalmente vestimos a camisa e, por vezes, sentimos como se a marca da empresa estivesse tatuada em nossa pele. Ter um vínculo empregatício rompido tem suas semelhanças com a separação e com o luto. Há um sentimento de rejeição presente no ar, uma vez que alguns são escolhidos para ficar e levar a companhia adiante. É comum nos pegarmos incrédulos com o fato ocorrido, questionando "por que eu?" ou mesmo "o que eu podia ter feito diferente". Mas essa resposta não existe e o ideal é aceitar a nova condição e tentar usar o fato ocorrido como alavanca.

 

Ser demitida foi um grande presente

 

Ter sido demitida, em especial na segunda vez, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na minha vida. Até hoje atribuo o fato a uma interferência Divina. Sabe o ditado que diz "Deus escreve certo por linhas tortas"? É exatamente assim que eu sinto e já conto porquê.

 

A notícia

 

Bom, obviamente fui pega de surpresa, fiquei mal, chorei e fiquei com raiva. No entanto, aquele mesmo dia ainda me reservava uma outra notícia pesada. Poucas horas depois da minha demissão, ligava minha mãe informando que meu pai havia recebido um diagnóstico de câncer. Pronto, o que estava ruim podia ficar pior. Chorei mais um montão, sentei, respirei e refleti sobre o que estava acontecendo. Conclui que Deus estava me dando de presente a oportunidade de ficar perto da minha família. Havia deixado a casa dos meus pais 17 anos atrás para fazer faculdade e só retornava para as férias. Resolvi rapidamente a burocracia do desligamento e voei para casa.

 

Para não me alongar e transformar a história em drama, consegui dedicar tempo para estar com meus pais e atuar ativamente durante o tratamento. Tudo correu bem e meu pai ficou completamente curado! Depois de 3 meses era hora de voltar para a realidade.

 

Plano B

 

E aí? País em crise, construção civil estava aquela beleza e eu me dando conta que tinha dedicado meus últimos anos de trabalho para uma empresa que não estava alinhada com um propósito que eu considerasse valer a pena. Não sabia o que aconteceria nos próximos meses, mas tinha uma certeza: não queria aquela vida de novo.

 

Durante os 3 meses anteriores tinha sentido falta de muita coisa relacionada a serviços de saúde. De repente, um dia, após uma corrida, veio um estalo: que tal criar sua própria empresa? E que tal se a empresa for na área de saúde? Estava plantada a semente!

 

Não sabia como e nem por onde começar. Só sabia que era a hora de arriscar. Tinha experiência profissional e um pouco de dinheiro guardado que, somado com à rescisão, me daria fôlego. Somou-se a isso um desejo ardente de construir algo que realmente tivesse um propósito, que eu pudesse chamar de "missão de vida". Algumas semanas depois, em uma mesa de bar, compartilhei minha inquietação com o Everton Höpner, que atualmente é meu sócio. Depois de algumas conversas, ele comprou a ideia e começamos a rabiscar o esboço do que seria hoje a Vittude.

 

Nasce uma empreendedora

 

Os primeiros insights surgiram em novembro de 2015, o primeiro rabisco em dezembro e em maio de 2016 nossa empresa nasceu formalmente. AVittude, uma plataforma que conecta psicólogos e pessoas em busca de psicoterapia, começou a operar em setembro de 2016!

 

Como fundadora tive a oportunidade de ser convidada pelo governo americano para representar o empreendedorismo feminino na Índia em 2017. Neste ano, fui a única brasileira selecionada para um programa de imersão no Vale do Silício, super concorrido, onde convivi com outras 14 fundadoras, de 13 países diferentes, durante 2 semanas.

 

Desde a fundação da empresa já agendamos mais de 10 mil consultas, temos mais de 1500 psicólogos, em 225 cidades brasileiras. Temos clientes em 12 países diferentes, que antes da Vittude encontravam dificuldade em falar com um psicólogo na sua língua materna. Também já ajudamos mais de 300 jovens em situação de risco a receberem consultas psicológicas gratuitas, conectando eles com psicólogos voluntários. No ano passado começamos a atender empresas, criamos o Vittude Corporate e hoje levamos mais saúde mental e bem-estar para o ambiente corporativo.

 

Cada vez que uma pessoa me conta que tem vontade de morrer e que eu consigo convencê-la a falar com um psicólogo, meu coração transborda de alegria. Hoje tenho certeza que trabalho em algo que faz realmente sentido!

 

E por que eu compartilhei tudo isso?

 

Ainda estamos vivendo um período de crise, ao conversar com amigos e amigas que estão empregados, percebo ainda o tom de preocupação em suas falas. Sei que a incerteza do ambiente macroeconômico nos faz questionar a todo momento se seremos os próximos a perder o emprego. Vi que muitas pessoas se identificaram com meu post do sábado anterior. Achei importante compartilhar o fato de que coisas muito boas podem surgir de momentos difíceis.

 

Aproveitei e preparei algumas dicas para lidar com a demissão caso ela ocorra.

 

1 - Aceite a situação

 

Se você já foi comunicado da demissão, nada mais pode ser feito. Sei que é difícil, dói, como disse acima, sempre fica aquela sensação de "rejeição", mas de fato não há o que fazer. Saia de cabeça erguida e encare com mais uma etapa concluída. Procure compreender os seus sentimentos. Raiva, frustração e tristeza normalmente aparecem e precisam ser ressignificados.

 

 

2 – Não se isole

 

Algumas pessoas têm a tendência a sentir vergonha pelo desemprego e até se afastar dos amigos. Essa não é a melhor decisão a ser tomada. Mantenha contato, converse com seus amigos, fale abertamente sobre sua situação. Pode ser que seu próximo passo esteja dentro da sua própria rede de contatos.

 

 

3 – Mantenha sua agenda preenchida

 

Não é porque você foi demitido que vai ficar o dia inteiro jogada na cama ou no sofá assistindo TV. Aproveite o tempo disponível para fazer coisas que você gosta e que sempre faltou tempo. E não precisa gastar muito dinheiro não. Vá dar uma caminhada no parque, reserve algumas horas para leitura, faça novos cursos. Há uma infinidade de plataformas que disponibilizam cursos gratuitos ou bem acessíveis. Uma outra dica que foi sensacional para mim, dedique-se a um projeto voluntário. Eu atuei durante 10 meses em um residencial de idosos, cuidando de pessoas com Alzheimer. Foi extremamente gratificante!

 

 

4 - Estabeleça um período para procurar uma nova posição e enviar currículos

 

Não faça desse momento um martírio e nem fique se lamentando nas redes sociais. Estabeleça algumas horas do dia para pesquisar novas vagas e enviar seus currículos. Não passe o dia todo na frente do computador. Isso pode gerar grande estresse e aumentar a ansiedade, comprometendo sua saúde.

 

 

5 – Cuide-se

 

Invista tempo em atividades que prazerosas. Escute sua música preferida! Tente reservar 10 minutinhos do seu dia para meditar. Aproveite seu tempo livre para curtir as pessoas que você ama. E se ainda tiver uma rusguinha aí nesse coraçãozinho por conta da demissão, talvez algumas sessões de terapia possam ser muito úteis para ajudá-la na construção dos seus próximos passos!!

 

Quando tudo estiver negro na sua frente, não tenha medo. Respire, respeite seu momento, chore se precisar, mas saiba que você é o único responsável por dar a volta por cima e aprender com as pedras no caminho!

 

 

 

Tatiana Pimenta é CEO e fundadora da Vittude, plataforma que conecta psicólogos e pacientes. Faz psicoterapia pessoal há quase 6 anos, sendo apaixonada por psicologia e comportamento humano. Idealizadora do Consultório Virtual da Vittude, desenvolvido especialmente para atendimentos de saúde, de forma segura e sigilosa.

 

 

 

 

Sobre a Vittude

A Vittude é uma plataforma pioneira no ramo de saúde mental que conecta psicólogos e pacientes em menos de 1 minuto. Criada em 2016 por Tatiana Pimenta e Everton Höpner, a empresa foi acelerada pela Startup Farm, no início da sua operação, e atualmente participa do programa de aceleração do Facebook e Artemisia, que acontece dentro da Estação Hack – primeiro centro para inovação criado pela rede social americana no mundo para impulsionar startups de impacto social. Já está presente em mais de 200 cidades brasileiras e recebe por volta de 620 mil visitantes únicos por mês. Atualmente a Vittude possui cerca de 3 mil pacientes e mais de 1600 psicólogos cadastrados, atuando em quase todos os continentes.

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