Aracaju, 24 de Setembro de 2018

Coluna

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Aqui Entre Nós

Por Nazaré Carvalho

Nazaré Carvalho é graduada em Letras pela UFS, especialista em Direito Educacional, jornalista, radialista e apresentadora de televisão. Exerce atualmente o cargo de Assessora de Comunicação da Faculdade Pio Décimo

29/10/2015
Nossa brutalidade
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A explosão de vandalismo nas ruas e nas redações dos telejornais desatou uma nova rodada de manifestações de baixo moralismo em desfazer os padrões de convivência conquistados a duras penas ao longo do processo civilizador.
 

Dividir o mundo entre bons e maus está na moda. A reinvenção dessa banalidade alcançou foros de seriedade na construção do discurso midiático e político contemporâneo.
 

Os vândalos atacam com as armas do preconceito, da intolerância e com as bordunas da brutalidade, sem falar nos ataques em massa à última flor do Lácio inculta e bela. Alguém já dizia que há método na loucura, mas, em sua marcha, a desrazão capricha na metodologia. As expressões “fascistas”, “idiotas politicamente corretos”, “elite vagabunda” poucas vezes foram utilizadas com tanta banalidade e descuido. Em alguns sítios e comentários, as generosas imprecauções adjetivas ganham a companhia de exaltadas conclamações para o retorno dos militantes ou sugestões para que os black blocks sejam mais eficientes em seu “empreendedorismo” anárquico, destruidor e, não raro, mortal.
 

Os estudiosos em totalitarismo sabem que a “autovitimização” da “boa sociedade” e a inculpação do “outro” foram métodos eficientes para a conquista do poder absoluto. Vejo blogs: os mais furiosos se apresentam como “humanos direitos” em contraposição aos defensores dos “direitos humanos”. Fico a imaginar como seria a vida dos humanos direitos na moderna sociedade capitalista de massa, crivada de conflitos e contradições, sem as instituições que garantam os direitos civis, sociais e econômicos conquistados a duras penas. A possibilidade da realização desse pesadelo, um tropismo da anarquia de massa, tornaria o Gulag e o Holocausto um ensaio de amadores.
 

No Livro A Cultura do Dinheiro (Vozes, 2001), o autor Fredric  Jameson lamenta: “Os quatro pilares ideológicos, jurídicos e morais do alto capitalismo - constituições, contratos, cidadania e sociedade civil - são, hoje, vadios maltrapilhos, mas sempre lavados, barbeados e vestidos com roupas novas para esconder sua verdadeira situação de penúria.
 

Desterrar o conflito para fora da esfera pública e colocá-lo à margem da ordem jurídica certamente fará irromper na sociedade de massa a verdadeira face da política de aniquilamento do outro. Muitos democratas sinceros e outros nem tanto são incapazes de avaliar corretamente o papel do ultraje pessoal na avacalhação do debate público. A ofensa pessoal desqualificadora usada como argumento, sobretudo se praticada sob a capa do anonimato, e a resposta no mesmo tom são instrumentos da brutalização das consciências.
 

É preciso atentar-se para a prática da retidão moral, para não desembocarmos no buraco negro do moralismo particularista e exibicionista.

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